Sunday, January 14, 2007

Contagem decrescente de reflexão (II)

"Correio da Manhã - Há quanto tempo faz abortos clandestinos?
Enfermeira C. - Há uns anos.
- Por que o faz?
- Não escondo que é por questões monetárias, mas não só: é uma ajuda que alguém tem de prestar. As pessoas precisam, é uma necessidade.
- Quanto leva por cada aborto?
- Entre 400 a 450 euros.
- Qual a percentagem de lucro?
- Sensivelmente metade, cerca de 200 euros. Gasta-se muito...
- Em quê?
- A anestesia é caríssima e não se vende nas farmácias. Vem de Espanha, adquire-se no mercado paralelo, ou seja, fica mais cara ainda. Anda na casa dos 50 euros. Depois há uma vacina, o Rogan, que tem de ser administrada no caso de a interrupção ser feita em sangue negativo. Se essa vacina não for tomada, os futuros filhos podem ter problemas. Essa vacina ronda, também, os 50 euros. Finalmente, os custos inerentes ao sítio onde se pratica.
- É fácil arranjar sítio?
- Nada fácil. Temos de comprar uma casa. Ninguém aluga uma casa para fazer abortos. Compramos uma casa e adaptamo-la. E temos de pagar a uma empregada, que não ganha o mesmo que uma empregada normal. Corre riscos, tem de ser paga acima da média.”

in “Ganho 200 euros por cada aborto que faço", entrevista de Paulo João Santos, publicada na edição de sábado do "Correio da Manhã"

Não muito breve comentário: A enfermeira C. gasta 50 euros na anestesia e outros 50 euros numa vacina que só tem de ser administrada em certos casos. Depois é sobrecarregada com os "custos inerentes". Ninguém lhe aluga uma casa para fazer abortos e é evidente que a primeira coisa que ela diz a cada potencial senhorio, ainda antes de apurar a renda, é que planeia utilizar as assoalhadas para exercer o tipo de "ajuda que alguém tem de prestar". Trata-se, certamente, da pessoa mais honesta de Portugal, sendo improvável que já tenha nascido a alma capaz de confessar que pretende alugar um imóvel durante cinco anos para nele instalar um "apartamento de massagens". Quanto mais uma linha de desmancho de gravidezes... Mas adiante. Tendo em conta a incompreensão alheia, a enfermeira C. vê-se forçada a comprar casa. Suponho que para os fins pretendidos não será necessário um apartamento com centena e meia de metros quadrados e imenso "cachet". Se calhar chega contrair um empréstimo de 150 mil euros para conseguir um local perfeitamente aceitável numa zona central e, no entanto, discreta, dotada de “uma sala, um quarto e um compartimento mais pequeno". Isto implica uma prestação mensal de 700 ou 800 euros num empréstimo a 30 anos. Sucede que a enfermeira C. admite fazer um aborto por dia, pelo que (contando apenas os dias úteis e tendo em conta que toda a gente precisa de descansar para melhor exercer o seu ofício) conseguirá 22x450 euros de receita mensal. Mas façamos as contas por baixo: 22x400 euros ainda chega a 8800 euros. Dessa maquia, considerando que todas as mulheres necessitariam da supracitada vacina, há que subtrair 22x100 euros, ou seja, 2200 euros. Ficam 6600 euros, mas há que pagar "acima da média" à empregada encarregue das limpezas. Quanto? Mil euros, o que já é mais do que a maioria dos licenciados ganham na primeira década de carreira, por deitar "uma pinguinha de sangue" para a sanita? Digamos que sim. Então a benfeitora fica com 5600 euros mensais por uma intervenção diária que a própria garante não demorar mais do que dez minutos de aspiração. Tendo em conta que já tem o aspirador, "made in China", há 15 anos, duvido que ainda o esteja a amortizar. Subtrai-se os tais 800 euros de prestação mensal e subsistem 4800 euros. Quer isto dizer que a enfermeira C. ganha mais ou menos o mesmo que o primeiro-ministro José Sócrates. Mas, ao contrário do que acontece com este último, gozará da infinita simpatia e compreensão de Francisco Louçã caso lhe suceda algum percalço.

3 Comments:

Blogger ISA said...

Obrigada Leonardo, verdadeiro serviço público!

1:05 PM  
Blogger Leonardo Ralha said...

Tudo isto existe, tudo isto é triste...

10:36 PM  
Blogger Milo Manara said...

A referida senhora vai votar Não. O Sim acaba-lhe com o negócio...

6:04 PM  

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