Wednesday, February 07, 2007

Da exclusiva irresponsabilidade dos seus autores


Admito que tal não seja evidente para quem passa por este blogue mas tenho-me em conta de crédulo. Tanto assim que, após ouvir doutas vozes postularem a moderação em curso na presente campanha para o referendo, permiti-me acreditar que desta vez tudo seria diferente. Poderia ter mantido a bela ilusão se o acaso não me levasse a ligar a televisão no preciso momento em que a emissão da 2: era ocupada pelos famigerados tempos de antena. Lá vi o frei Louçã e a Ana Drago a torcerem as leis da lógica até as crenças de João César das Neves quanto às gravidezes provocadas por violação serem dogma para todos os apoiantes do "não". Não fiquei impressionado com o grau de demagogia dos "self-righteous" dirigentes bloquistas, rapidamente compensada pelo "rap" anti-aborto que embelezou um dos milhentos tempos de antena das incontáveis ramificações do movimento Não Obrigada!. Já o mesmo não posso dizer do espaço da exclusiva responsabilidade dos Jovens pelo Sim, rematado pelo mais repelente dejecto fumegante em forma de propaganda que até hoje vi em Portugal. Trata-se de um filme de escassos segundos cuja acção decorre numa penitenciária feminina decalcada dos filmes em que a heroína é apanhada com droga no aeroporto de um país oriental. A dado momento soa uma sirene e as apavoradas presidiárias recolhem nas celas enquanto uma nova companheira de infortúnio, atrozmente combalida e trajada com pouco mais do que roupa interior, é literalmente arrastada por duas guardas que provavelmente reservam imaginativas sevícias para mais tarde. Pois que a desgraçada jovem, "cujo único crime foi abortar", é atirada para dentro de uma cela escura onde não demoramos a perceber estarem concentradas mais algumas como ela. Dizer que fiquei impressionado com a criatividade dos Jovens pelo Sim é pouco, muito pouco. Apetece-me mesmo perguntar se alguns dos "jovens de todo o país, de muitas idades e profissões", os quais defendem "ideias e formas de agir muito diferentes", se revêem na mensagem do movimento que integram. Sem procurar ser exaustivo a percorrer o rol disponível no "site" oficial, confesso que gostaria de saber o que pensam acerca disto o escritor José Luís Peixoto, o meu velho conhecido Tiago Gomes, o meu colega de faculdade Sérgio Vitorino, a atleta olímpica Susana Feitor ou os músicos Pacman, Jorge Palma e Zé Pedro. Pela minha parte garanto que tornaria público o meu repúdio caso um celerado (também os há, também os há...) do campo do "não" realizasse um vídeo de propaganda a insinuar que, estando em vigor na Galileia a alteração legislativa que poderá ou não ser legitimada pelo eleitorado português no próximo domingo, talvez Maria não levasse a gravidez de Jesus até ao fim.

4 Comments:

Blogger MPR said...

É incrivel sim, tão incrivel quanto as fotos de fetos de seis meses, ou as cartas dos bebes que não puderam nascer que foram colocadas nas mochilas da escola de muita criançada. Há excessos, o que não invalida a posição global.

11:06 AM  
Blogger ISA said...

é que até mete nojo...

A pequena diferença é que foi usado tempo de antena para propagandear ideias FALSAS, meu caro. A única diferença é essa. e n é pequena.

2:53 PM  
Blogger Telescópio said...

Leo, em primeiro lugar tenho que te dizer que considero esta história do menino Jesus muito mal contada. Um tipo é carpinteiro, passa uns tempos fora de casa e, quando chega, a mulher diz-lhe «ah e tal, estou grávida mas é do Espírito Santo» e ele responde «Milagre! Maria sem pecado concebida!» Se calhar sou eu, mas parece-me improvável.

Quanto ao radicalismo das campanhas, é de facto lamentável. Ontem foi notícia na SIC que a campanha do Não andava a distribuir dvd's horripilantes sobre o aborto a crianças de uma escola do Cacém. Brinquemos?

Acredito na liberdade de escolha e por isso voto Sim. Mas não gosto do tempo de antena a que te referes, tal como acho demagógicos os cartazes do movimento Não, Obrigada e realmente anti-democráticas as ameaças de excomunhão dos padres portugueses. Felizmente, o voto é secreto e estamos apenas a falar dos artifícios, do lado mais acessório da questão. Domingo se verá.

Ricardo Rodrigues

6:23 PM  
Blogger Richelieu said...

Oh meu amigo do post anterior: as excomunhões são automáticas, não é preciso declará-las... aliás, a expressão é incorrer em excomunhão. Quer isto dizer que, com ameaça ou sem ela, pelo próprio facto de se cometer conscientemente o acto em causa, se fica excomungado... portanto deixe lá os padres sossegados, que eles só têm lembrado é o assunto...

11:40 AM  

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